A SUPOSTA DISCREPÂNCIA GENEALÓGICA (EVANGELHO SINÓTICO)

POR DANIEL SANTOS


Posto que ao escrever seus evangelhos Mateus e Lucas nos transmitiram genealogias diferentes acerca de Cristo, que para muitos parecem ser controverso, decorrente à isto, sabe-se que as imaginações ganham território; vamos adicionar as considerações sobre este tema que chegaram a nós e que Africanus recorda em carta à Aristides, acerca da concordância das genealogias nos evangelhos.

Ele refuta as opiniões dos demais como forçadas e mentirosas, e expõe o parecer que recebeu nestes mesmos termos: "Porque, efetivamente em Israel os nomes das famílias se enumeravam segundo a natureza ou segundo a lei. Segundo a natureza, por sucessão de nascimento legítimo; segundo a lei, quando um morria sem filhos e seu irmão os engendrava para conservar seu nome (a razão é que ainda não se havia dado uma esperança clara de ressurreição, e arremedavam a prometida ressurreição futura com uma ressurreição mortal, para que se perpetuasse o nome do falecido)".

Os incluídos nesta genealogia; uns se sucederam por via natural de pais a filhos, e os outros, ainda que gerados por uns, recebiam o nome de outros, de ambos os grupos se registra a memória: dos que foram gerados e dos que passaram por sê-lo.

Deste modo, nenhum dos evangelhos mente; enumeram segundo a natureza e segundo a lei. De fato, as duas famílias que descendiam de Salomão e de Natã respectivamente estavam mutuamente entrelaçadas por causa das ressurreições dos que haviam morrido sem filhos, das segundas núpcias e da ressurreição da descendência; de forma que é justo considerar os mesmos indivíduos em diferentes ocasiões, filhos de diferentes pais, dos fictícios e dos verdadeiros, e também que ambas genealogias são estritamente verdadeiras e chegam até José por caminhos complicados, mas exatos.

Mas para que fique claro o que foi dito, vou explicar a transposição das linhagens.

Quem vai enumerando as gerações a partir de Davi e através de Salomão encontra que o terceiro antes do final é Matã; o qual gerou a Jacó, pai de José. Mas, partindo de Natã, filho de Davi, segundo Lucas, também o terceiro para o final é Melqui, pois José era filho de Heli, filho de Melqui.

Portanto, sendo José nosso ponto de atenção, deve-se demonstrar como é que nos é apresentado como seu pai um ou outro. Jacó, que traz sua linhagem de Salomão, e Heli, que descende de Natã; e de que modo, primeiramente os dois, Jacó e Heli são irmãos; e ainda antes, como é que os pais destes, Matã e Melqui, sendo de linhagens diferentes, aparecem como avós de José.

Assim é que Matã e Melqui se casaram sucessivamente com a mesma mulher e tiveram filhos, filhos de uma mesma mãe, pois a lei não impedia que uma mulher sem marido - porque este a houvesse repudiado ou porque houvesse morrido - se casasse com outro.

Pois bem, (pela tradição era assim que se chamava a mulher), Matã, o descendente de Salomão foi o primeiro, gerando a Jacó; tendo morrido Matã, casou-se a viúva com Melqui, cuja ascendência remonta a Natã e que, sendo como dissemos antes, da mesma tribo, era de outra família. Este teve um filho: Heli.

E assim encontramos que, sendo de duas linhagens diferentes, Jacó e Heli são irmãos por parte de mãe. Morrendo Heli sem filhos, seu irmão Jacó casou-se com sua mulher, e dela teve um terceiro filho, José, o qual segundo a natureza, era seu (e segundo o texto, pois por isso está escrito: Jacó gerou a José), mas, segundo a lei, era filho de Heli, já que Jacó, sendo seu irmão, suscitou-lhe descendência.

Portanto não se tirará autoridade a sua genealogia. Ao fazer a enumeração, o evangelista Mateus diz: Jacó gerou a José; mas Lucas procede ao contrário: O qual era, segundo se cria (porque também acrescenta isso), filho de José, que era filho de Heli, filho de Melqui. Não seria possível expressar mais corretamente o nascimento segundo a lei: vai remontando um a um até Adão, que foi de Deus, e até o final omite o "gerou", para não aplicá-lo a este tipo de paternidade.

E isto não está sem provas nem é improvisado. Efetivamente, os parentes carnais do Salvador, por geração ou simplesmente pelo ensino, mas sendo verdadeiros em tudo, transmitiram também o que segue. Uns ladrões idumeus assaltaram Ascalom, cidade da Palestina; de um templo de Apolo construído diante dos muros, levaram cativo, junto com os despojos, a Antípatro, filho de certo hieródulo chamado Herodes. Não podendo o sacerdote pagar um resgate por seu filho, Antípatro foi educado nos costumes dos idumeus, e mais tarde fez amizade com Hircano, o sumo sacerdote da Judéia.

Logo tornou-se embaixador junto a Pompeu em favor de Hircano, para quem conseguiu o reino devastado por seu irmão Aristóbulo; e ele mesmo prosperou muito, pois logo conseguiu o título de epimeletés da Palestina.

A Antípatro, assassinado por inveja de sua grande fortuna, sucedeu seu filho Herodes, que mais tarde, por decisão de Antônio e Augusto e por decreto senatorial, reinaria sobre os judeus. Este teve como filhos Herodes e os outros tetrarcas. Todos estes dados coincidem com as histórias dos gregos.

Além disso, estando inscritas até então nos arquivos as famílias hebréias, inclusive as que remontavam aos prosélitos, como Aquior o amonita, Rute a moabita e os que saíram do Egito misturados aos hebreus Herodes, por não ter nada com a raça dos israelitas e magoado pela consciência de seu baixo nascimento, fez queimar os registros de suas linhagens, acreditando que passaria por nobre, já que outros também não poderiam remontar sua linhagem, apoiados em documentos públicos, aos patriarcas ou aos prosélitos ou aos chamados "geyoras", os estrangeiros misturados.

Em realidade, uns poucos mais cuidadosos, que tinham para si registros privados ou que se lembravam dos nomes ou haviam-nos copiado, se ufanavam de ter a salvo a memória de sua nobreza. Ocorreu que entre estes estavam aqueles de que falamos antes, chamados despósinoi por causa de seu parentesco com a família do Salvador e que, desde as aldeias judias de Nazaré e Cocaba, visitaram o resto do país e explicaram a referida genealogia, começando pelo Livro dos dias, até onde alcançaram.

Seja assim ou de outro modo, ninguém poderia encontrar uma explicação mais clara. Eu ao menos penso assim, e assim também todo aquele que tenha boa vontade. Ainda que não esteja comprovada, ocupemo-nos dela, porque não é possível expor outra melhor e mais clara. Em todo caso, o Evangelho diz inteiramente a verdade."

E ao final da mesma carta adiciona o seguinte: "Matã, da linhagem de Salomão, gerou a Jacó.

Morto Matã, Melqui, o da linhagem de Natã, gerou da mesma mulher a Heli. Portanto Heli e Jacó são irmãos uterinos. Morto Heli sem filhos, Jacó dá-lhe uma descendência gerando a José, filho seu segundo a natureza, mas de Heli segundo a lei. Assim é que José era filho de ambos". Assim diz Africanus.


Estabelecida desta maneira a genealogia de José, também Maria aparece junto a ele, obrigatoriamente, como sendo da mesma tribo, já que, ao menos segundo a lei de Moisés, não era permitido misturar-se às outras tribos pois é prescrita a união em matrimônio com um do mesmo povo e da mesma tribo, para que a herança familiar não rodasse de tribo em tribo. Que seja isto o bastante.

Fonte literária: Eusébio de Cesaréia/VII
Tradução: WOLFGANG FISCHERS
SãoPaulo2002
Supervisão editorial: Eduardo de Proença
Produção editorial: José Carlos Vidal
Revisão: Maria Aparecida Salmeron
Composição: Real Produções Gráficas Ltda.

Capa: Eduardo de Proença
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